Contribuições ao debate sobre a Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas.
Em 1979, Herculano Pires, no livro “Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas”, propôs um exercício interessante: pensar, sob a égide espírita, em terapias para doenças que acometem o ser humano, em especial as de ordem psíquica. Exercício salutar que inspirou estas páginas cuja proposta é ampliar o debate em torno do tema, sem intenção de fazer uma resenha crítica do livro, para o que seria necessário um olhar mais amiúde sobre os pontos, alguns controversos, levantados por Herculano.
Organizada no século XIX, a Doutrina Espírita foi apresentada por Allan Kardec, no preâmbulo de O Que é o Espiritismo, como “uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal.” (2009c, p. 10), sendo ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Em outras palavras, o Espiritismo ao passo que estuda as relações entre Espíritos (encarnados ou não), compreende as implicações morais que decorrem dessas relações.
Ao adentrar no campo espiritual com a perspectiva científica, a Doutrina Espírita quebra a aura de ficção, de misticismos, superstições, e de mentiras até, criada em torno do mundo espiritual, especialmente por práticas religiosas que apostaram na fé pela fé: creia, mesmo que absurdo seja. Ao comprovar, através da observação científica, a existência do Espírito não como um ser abstrato, fruto da imaginação humana, mas como um ser real, objetivo, circunscrito e que pode ser apreciado, especialmente, pelos sentidos da visão, audição e tato (KARDEC, 2009a), o Espiritismo golpeia o materialismo que encontrou acento, de maneira hegemônica, nas ciências ordinárias.
Desse modo, rejeita, por um lado, “o materialismo exclusivista da ciência”, e por outro, o “religiosismo alienante” (PIRES, 2018) e propõe um outro caminho longe dos conflitos entre religião e ciência – cuja origem remonta ao Renascimento (século XV) quando esses dois campos se apartam na busca por se firmarem como campos intelectuais autônomos (WOORTMANN, 1996). Institui, então, a fé raciocinada, ou seja, conhecer, compreender para crer; vai em busca da verdade, através da razão.
Por conseguinte, o espiritista acata este desafio. E, mesmo aquele sem tradição na pesquisa científica que exige um pensar racional, metodológico e sistemático, tem, por coerência e ética intelectual, usar da lógica, do bom senso e da razão para lidar com as coisas do mundo espiritual e da relação deste com o mundo corpóreo. Deve se esforçar para tratar com racionalidade – privilegiando a lógica e o bom senso – os benefícios terapêuticos da oração, a mediunidade de cura, o diálogo com os Espíritos e demais fenômenos espíritas que, aos olhos do leigo, parecem extraordinários, miraculosos ou fantasiosos.
Dito isso, atentemo-nos para as implicações terapêuticas que a Ciência Espírita pode trazer. Antes, porém, uma pequena digressão para refletir sobre o papel das enfermidades na vida terrena e sobre ser a cura da alma a mais importante a se perseguir.
Conforme O Livro dos Espíritos (KARDEC, 2009a), há dois elementos fundamentais que constituem a infinidade dos mundos que compreende o universo: o espírito – “princípio inteligente” (questão 23) – e a matéria, “laço que retém o espírito” (questão 22). A união entre ambos, dá inteligência à matéria (questão 25), e para que esta se torne animalizada, característica típica dos corpos orgânicos, é preciso que se inclua o princípio vital (questão 62). Já o Espírito, que surge da individualização do princípio inteligente (questão 79), também guarda relação com a matéria.
Quanto mais progresso alcançado, menos afetado é o Espírito pelas relações materiais; menos sujeito está às influências das paixões, às doenças, porque mais desmaterializado se encontra. Porquanto, há uma relação direta entre Espírito, progresso moral e matéria. Relação esta regida por leis morais que, junto com as leis físicas, formam o conjunto das leis da natureza, logo, o conjunto das leis divinas (KARDEC, 2009a); como bem explicita Kardec no comentário da questão 617, em O Livro dos Espíritos:
Entre as leis divinas, umas regem o movimento e as relações da matéria bruta: são as leis físicas e seu estudo está no domínio da Ciência. Outras, concernem especialmente ao homem, em si mesmo e em suas relações com Deus e com seus semelhantes. Elas compreendem as regras da vida do corpo, como também as da vida da alma: são as leis morais (KARDEC 2009a, p. 205).
Ao apresentar, de maneira dialética, o espírito como elemento estruturador da matéria (PIRES, 2018) e ao desvendar as leis divinas, em especial as morais, o Espiritismo revela a natureza mista do ser humano, que é espiritual (imortal) e material (orgânica e social/finita); necessária à vida de relação. Contribuições importantes que, se fossem aceitas pelas ciências ordinárias, poderiam ampliar ainda mais o alcance destas, favorecendo, inclusive, a descoberta de causas e tratamentos para enfermidades que, até o momento, não possuem explicação médica.
Em nosso planeta, as doenças “são inerentes à imperfeição da nossa natureza material e à inferioridade do mundo que habitamos” (KARDEC, 2009b, p. 271). Elas estimulam o desenvolvimento do princípio inteligente, presente nos organismos (vegetais, animais e hominais), que busca meios para combatê-las, e continua, assim, aprimorando-se. Concorrem também para o progresso do Espírito, visto que a doença no ser humano tem um componente moral, pois interliga-se às provas e expiações por se viver na Terra.
Este saber permite que se constate a utilidade das doenças que passam a ser vistas como oportunidades de progresso não só do Espírito, mas de toda a vida no planeta. Este novo olhar, que a Doutrina Espírita ajuda a construir, possibilita um atitude mais proativa diante das enfermidades. Encarar a doença, encontrando nela perspectivas de crescimento, revigora os ânimos para lidar com as dores e limitações de um corpo enfermo – ou para enfrentar doenças incuráveis –, e abre um caminho para se firmar a compreensão da perfeita bondade e misericórdia de Deus.
O conhecimento espírita é ainda poderoso aliado na prevenção e no tratamento de desordens psíquicas, que se relacionam mais diretamente aos dilemas da alma. Como isso é possível? Ao compreender o mundo dos Espíritos, a razão de estarmos aqui, o objetivo de nossa encarnação na Terra; ao entender a influência dos Espíritos e o mecanismo da mediunidade; ao ampliar o conhecimento sobre a existência e a manipulação dos fluidos pelo pensamento, ou seja, sobre o magnetismo... Enfim, ao refletir sobre as leis de Deus e entender o sentido da existência, encontram-se condições para enfrentar, de maneira mais serena, as adversidades da vida que nos abalam os nervos e potencializam enfermidades.
Já as reuniões espíritas, verdadeiros laboratórios do mundo espiritual, também trazem um cunho terapêutico na medida em que provocam autorreflexões, pois as comunicações instrutivas e os diálogos para moralização orientam e esclarecem encarnados e desencarnados, num processo fraterno de ajuda mútua. Peça importante nos casos de obsessão, que se alia ao esforço do obsediado para se transformar moralmente.
Assim, ao esclarecer as almas, o Espiritismo consola, estimula a coragem moral diante das adversidades e pode prevenir certos transtornos mentais e não os causar, como detratores acusam a Doutrina. Isso porque “a calma e a resignação, hauridas na maneira de encarar a vida terrestre e na fé no futuro, dão ao espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio” (KARDEC, 2009b, p. 60).
Junte a isso, a prece: “uma invocação” que nos coloca “em comunicação mental” com outro ser a quem nos dirigimos (KARDEC, 2009b, p. 231); um pedido de auxílio a Deus, que nos chega, através do concurso dos Bons Espíritos. Mergulhados, encarnados e desencarnados, no fluido universal que ocupa o espaço em que nos encontramos, o nosso pensamento encontra seu veículo no fluido, impulsionado pela vontade que emana de nós, estabelecendo, assim, uma corrente fluídica cuja energia “está em razão do vigor do pensamento e da vontade” (p. 232), e que pode ter uma ação curativa. Esta relação entre magnetismo e o concurso dos Bons Espíritos se manifesta também como mediunidade curadora, faculdade que, em geral, é espontânea até em médiuns que desconhecem a ação dos fluidos pelo magnetismo (KARDEC, 2008).
Ressalta-se, contudo, a importância das terapias preventivas e curativas, desenvolvidas pela Psicologia, pela Alopatia e disciplinas afins, bem como aquelas ligadas à Homeopatia, ao Magnetismo e demais terapêuticas. Afinal, “ao lado da medicação ordinária, elaborada pela Ciência, o Magnetismo nos fez conhecer o poder da ação fluídica; depois o Espiritismo veio nos revelar uma outra força na mediunidade curadora e a influência da prece” (KARDEC, 2009b, p. 271).
Por fim, apesar do seu potencial terapêutico, a maior contribuição do Espiritismo é ser a lupa que expõe as fragilidades morais de quem acata sua proposta. É ajudar seus adeptos a compreender a real necessidade da transformação moral para se alcançar a felicidade da paz de espírito. Felicidade que se apresenta como desejo inerente ao ser humano. Mas cujo alcance exige deste, um caminhar que transcende o humano; possível por ser ele Espírito imortal e perfectível. Assim, aquele que se esforça por reprimir suas paixões já “compreende sua natureza espiritual” e “as vitórias são para ele um triunfo do Espírito sobre a matéria” (KARDEC, 2009ª, p. 283); a verdadeira cura.
REFERÊNCIAS
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 182ª ed. Araras-SP: Instituto de Difusão Espírita, 2009a.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 365ª ed. Araras-SP: Instituto de Difusão Espírita, 2009b.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 87ª ed. Araras-SP: Instituto de Difusão Espírita, 2008.
KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. 74ª ed. Araras-SP: Instituto de Difusão Espírita, 2009c.
PIRES, José Herculano. Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas. 7ª ed. São Paulo-SP: Editora Paideia, 2018.
WOORTMANN, Klaas. Religião e Ciência no Renascimento. In. Série Antropologia 200. Departamento de Antropologia. Universidade Nacional de Brasília. Brasília-DF, 1996. Disponível em: http://dan.unb.br/images/doc/Serie200empdf.pdf Acesso: 07.01.2022.
Interessante demais essa abordagem. O Espiritismo, em sua vertente científica, deve andar de mãos dadas com a ciência. A partir do paradigma do espírito, pode levar para a ciência um alargamento da visão. Parabéns, Klycia!!!
ResponderExcluirKlycia sempre muito ética em seus propósitos achei que narrou muito bem o que Herculano Pires trabalhou incansavelmente essa relação entre as manifestações da vida como espíritos libertos, o seres humanos encarnados e suas relações no decorrer da evolução .
ResponderExcluirParabéns pelo seu trabalho.
Texto interessante. Muito esclarecedor. Fiquei com a convicção de dois momentos em nossa vida espiritual. 1) precisamos olhar em nosso cotidiano a relação de nossa consciência, "consciência de si" para nossa evolução em "consciência para si". 2) Então, o pesquisador, utilizando a dialética como modo de conhecer, pode visualizar a trajetória encarnada e desencarnada, seus avanços e estagnacões. Assim, sem preconceitos metafísicos, pode acessar as possíveis causas de nossas enfermidades, longe das nuvens que obstaculizaram os olhos da nascente Ciência do Espírito.
ResponderExcluirEste não é um texto "interessante",é sim um texto de excelência, interessante é a "revista contigo"...Só espero que os leitores alcancem todo o entendimento como tem que ser,ou seja que a Doutrina Espírita é de autonomia e que nós somos os únicos responsáveis por tudo de bom ou ruim que nos aconteça, que possamos assim valorizar a vida com as ferramentas a nós concedidas pelo PAI,para trabalharmos nosso crescimento e evolução moral inclusive abolindo o igrejismo que têm nos oferecido,e cuidarmos da nossa religiosidade e espiritualidade.Parabéns pelo trabalho.
ResponderExcluirParabéns Klycia. Seus textos são sempre muito elucidativos.
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