Espiritismo, Educação e Prática Social


por Alexandre Júnior - pedagogo, escritor, pós-graduado em Gestão Educacional e Coordenação Pedagógica; em Pedagogia Espírita, e pesquisador de Gênero, Sexualidades e Espiritualidades 

Os atavismos, bem como o fruto dos nossos aprendizados, as nossas experiências e vivências, as culturas, formam os conjuntos de costumes e hábitos que nos definem. Estes aprendizados podem se dar de forma traumática, prazerosa, educativa, pedagógica, e até casual. Daí, existirem os processos educativos formais e informais. A relação destes seres humanos uns com os outros, as trocas, as partilhas e as tensões na obtenção, conquistas, apreensão, aprendizados e expertises, formam as sociedades.
    Erigir, instituir, ou exigir a ação e a produção de sujeitos unos, diante de toda a diversidade que forma estes seres espirituais, não parece ser um pensamento espírita, dizemos sobre a formação da integralidade do Ser, que contempla os aspectos: afetivos, intelectuais, emocionais, espirituais e físicos, que dão vida ao mundo social. Não levar estas peculiaridades em consideração, é alijar as subjetividades destes sujeitos, e inobservar o que de fato os tornam humanos.
O espiritismo defende uma educação que, enquanto processo pedagógico, tem, em suas bases, a formação de novos hábitos e caracteres. Quando de forma sistemática, nos opomos às mudanças impostas pelo tempo, perdemos o conceito que norteia o princípio, e sendo assim, nos tornamos incapazes de tornar a ação eficaz e de facultar a este agente social envolvido, a possibilidade de mudar de acordo com a exigência da temporalidade. Outrossim, como mudarmos se somos avessos a mudanças? Esta negação às transformações sociais pode ser, em algum momento, responsável pelo engessamento dos conceitos espíritas, ou a dogmatização dos seus princípios, tal qual uma religião ortodoxa.
    Este diálogo é extremamente importante, para que possamos entender o processo educativo, do ensino/aprendizagem, a partir de uma perspectiva espírita, espiritualista, imortalista, reencarnacionista, autônoma, libertadora e libertária. A negação deste processo inviabiliza os diálogos, bem como estabelece práticas ortodoxas nas práxis espiritistas, que são antagônicas ao próprio devir espírita!
    Para que o espiritismo pudesse exercer uma ação transformadora na sociedade, entendendo a educação, a partir de Kardec, ele, o espiritismo, precisaria propor junto a sociedade, diálogos que viabilizassem a construção de políticas de ações afirmativas que levassem em consideração a integralidade do Ser e observassem as demandas e realidades que compõem a sociedade contemporânea. 
    Enquanto este processo formador, tiver o caráter de negar aquilo que é o humano em todas as dimensões já explicitadas anteriormente, e insistir em não dialogar com a diversidade que forma o referido agrupamento de seres, este espiritismo será incapaz de agir em sua mais pura condição, e por conseguinte, não cumprirá com o seu papel, segundo Deolindo Amorim³, de interferir no mundo, produzindo justiça e igualdade social.
    Quanto ao verdadeiro “cavalo de Tróia”, ou as “cruzadas modernas” ou a “caça às bruxas”; é rechaçar o diálogo por pré-conceito, e/ou por ignorância, é estabelecer verdades montadas nos castelos das areias do dogmatismo, e na indisposição a dialogicidade, que é a antítese do processo educativo, é cravar, perseguir e cancelar pessoas, às tornando inimigos pessoais, é ser inábil e incapaz de discutir e discordar no campo das ideias, e não das pessoas!
    Convido-nos a uma reflexão, um repensar as práticas educacionais espíritas, a partir da leitura de um Kardec, que em nenhum momento, e sob nenhuma circunstância, abandonou o diálogo.

(contato:  81 9808-5393 Alexandre Júnior)

    A ação da educação espiritista, apresenta sim uma proposta freiriana de busca pela autonomia, que visa estabelecer condições e munir de recursos os Seres para a produção de uma sociedade mais justa e mais igual, desta maneira, estabelece a liberdade em suas práticas e oportuniza a todas, todos, e todes a possibilidade de ascensão, sem desmerecer nenhuma realidade ou romancear sofrimentos e dores, ou ainda, o enaltecimento de uns sobre outros!
    Vale salientar que nenhuma ação aviltante dos Direitos Humanos encontra razão de existir no conjunto de saberes do espiritismo, ficando a cargo das pessoas espíritas, esta confusão epistemológica, o que nos arremete novamente a Kardec, pergunta 806, do O Livro dos Espíritos, quando a referida resposta nos leva a entender que as desigualdades sociais, não são ações divinas, portanto, devem ser tratadas e resolvidas a partir de ações humanas no campo das políticas públicas e sociais!

    Pensamos então, sendo dos seres humanos a responsabilidade com as injustiças; fome, miséria, desemprego, machismo, LGBTQIAP+Fóbia, sexismo, xenofobia, racismo, racismo religioso, feminicídio, devem ser resolvidos à partir das já referidas políticas públicas, por conseguinte, refletimos, Deus não criou PIB – Produto Interno Bruto, não indexou o preço do combustível ao dólar, não tirou título de eleitor e votou em políticos e consequentemente em suas políticas, capitalistas, neoliberais, armamentistas, preconceituosas e que flertam com fascismo, por exemplo.
    A educação, visa dar condições, munir as pessoas de recursos que as faça compreender o seu lugar no mundo e as responsabilidades que lhe recaem com suas ações e escolhas, conduzir estes espíritos a uma prática autônoma que lhes conceda a competência de serem senhores e senhoras de si mesmos, protagonistas de suas próprias histórias e com plena capacidade de tornar a Terra um lugar melhor para todas, todos e todes.
    Até que está autonomia seja alcançada e a educação, que é um que fazer político, seja apreendida, enquanto este despertar pedagógico não se transforme em consciência de classe, com ênfase em gênero e raça, a opressão será uma marca que caracterizará as ações que visam manutenção de status quo, e não possuem no amor a sua gênese. “É quando existir é uma questão de resistência” (Alexandre Júnior, 2022).

Referências
JÚNIOR, Alexandre. Espiritismo, Educação, Gênero e Sexualidades. Um diálogo com as Questões Sociais. Recife: CBA Editora, 2022. p.45.
AMORIM, Deolindo ,O Espiritismo e os Problemas Humanos. (Amorim, 1991) p. 8 AMORIM, Deolindo. O Espiritismo e os problemas humanos. União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, USE Editora. 1991.
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos: princípios da doutrina espírita. Livraria Allan Kardec Editora, 2007.

Comentários

  1. Há uma frase que considero emblemática nos ensinamentos espíritas: "convicção não se impõe". Quem defende a liberdade de consciência e de escolha como processos necessários ao aprendizado espiritual e por conseguinte, ao progresso do Espírito necessita entender que a educação que forma os caracteres do bem no ser humano é fundamental. Não dá pra ignorar nesse caminhar a relação com a coletividade, é preciso observar nosso lugar no mundo, inclusive, pra observar nossa natureza espiritual. Obrigada, Alexandre por tua contribuição. Esperando, feliz, para ler teu livro!

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    1. Primeiro parabenizo ao Coletivo Girassóis Espíritas pelo bem comum, pela criação deste espaço de construção de saberes, e agradeço o convite para partilhar neste lindo espaço. Meu carinho pelo coletivo e as pessoas que o fazem não é segredo para ninguém. Sigamos em frente juntas, juntos e juntes, e contém sempre comigo!

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  2. Alexandre, "a aquisição de novos hábitos". Aí está a institucionalização do "problema espírita". Tendo por base a encarnação como parte do processo evolutivo espiritual, como institucionalizar está questão? A "evolução do Ser" exige liberdade para a conscientização dos problemas do entorno e, a partir de então, buscar as soluções junto com seus pares. Isto mesmo, "junto com", pois sendo "espírito encarnado" o Ser é eminentemente social. Só no intercurso do "outro", seu coletivo, a evolução espiritual cumpre seu papel na encarnação.

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