MATERNAR !
Por: Aurelúcia Francisca dos Santos
Ela vem e nasce inteira na busca incessante por si; transmuta o que ninguém ousa tocar em si, de si; diamante bruto que a vida lapida disfarçando-se em ouro para ser carne; chamam-na e ela busca a voz que clama, reconhece o que de melhor pode dar, e vai, às vezes, sem norte ou prumo, veleja quantas e, não poucas vezes, naufraga, afoga-se, afoba-se em si. Esculpida de deusas tem em si múltiplas faces, porém um só coração que sente dores atrozes...como sobrevive? Como sorrir depois de tantos choros velados, surdos que faz cândido?
Não, não sei onde encontras forças para está junto, bem pertinho, dos que ajudas a co-criar; não, não concebo tamanha força que blindas com fé e perfumas em palavras; não, não sei vislumbrar qual paraíso buscas encontrar para dar? Sois o porto mais seguro que os barcos a vela içam-se sem nem saber que direção tomar, no mar da vida, chegarão a ti, querida, certos que os receberás, incertos em suas dores, prumos, rumos, húmus da terra, que pó nos faz deixam-se a ti! Maestrina de acordes tão afins, afinados, sem confinar porque mesmo quando proteges ou superproteges, sois a suave brisa que liga-nos a água do quarto gerador, geratriz, do mais puro e imensurável amor.
Amor que libera desde a fecundação, já nasces plena de cada semente, inteira desde o ventre, do ventre que te gerou, acarinhou, embalou, chorou, sorriu, liberando para a primeira grande viagem a semente única de cada mês que, translucente, alça a velejar tranquila, serena, imponente, rainha-semente sois, em cada canto que te coloques, te busquem, ou silencies, implantada, já fecundada, faze-se repouso, em um berço único, teu quarto de águas por 270 dias para que teu fruto, no ventre, floresça, florescente e fecundante permanecerás.
Chamam-te Mãe, mainha, mãezinha, mamãe não importa, atenderás; sois o único nome que qualquer rebento recorre quando clamam por apoio, amor, lenitivo na dor. Ahhh, como fazes falta quando, mesmo viva, não mais podemos ver-te em pé, erguida, qual a vela de um barco que nos ajuda a transpor barreiras, turbulências, intempéries. Ahhh, mamãe, se soubéssemos como te magoamos, maculamos, renegamo-te, ahhh, mamãe, se soubéssemos que nestes momentos que te deixamos o embargo na voz, abandonamos ou te relegamos, pudéssemos gestar teu coração, será que suportaríamos tamanha dor,logo a ti, mamãe?
Lembrar-te quando criança, passa rápido a fase de colo, acalanto, balbucio das primeiras letras, truculentos passos que damos ao iniciar o andar para podermos pecorrer o nosso caminho, só nosso, porém com tua anuência, sempre, mamãe, estejas por perto como quando para nós ensinavas estorinhas que nos faziam voar para longe de tua copa alcançando, rapidinho, teu coração; alçaremos o grande vôo em direção ao sol da nossa vida, do nosso caminho sem ti, mas por ti, por nós; atrevo-me a te contar este pequeno enlevo que compus para ti, enlaçando assim nossas asas, sem emaranhar, mas possamos bailar paralelamente, se a sombra deste imenso baobá , mesmo aqui não estejas mais; te contarei assim: Era uma vez, uma folha que desprendeu-se de uma grande árvore onde há muito tempo ali habitava....e foi um rebuliço só! Suas primas-irmãs não conseguiam imaginar que apesar de toda nutrição, sombra e água fresca que a folha ali tinha por que, justamente, naquele entardecer `Nascente ` , decidira desprender-se?! Nascente, esse era o nome dela, por onde nasce o sol, porque ela ficava, justamente, do lado do nascer do irmão Sol... Gotinha, Orvalho e Pingo comentavam : ` menina deu um vento tão forte naquela tarde que eu achei, dizia Gotinha, que todas minhas gotinhas iriam secar...` pois não foi, menina, quase não restou uma gota de orvalho no outro dia, relatava Orvalho ; achei até que os meus pingos que te molham Gotinha e Orvalho não conseguiriam segurar-se , comentou Pingo...e naquele dia esse Nascer de Nascente foi o assunto do dia...”tão jovem ainda era ela...tão verdinha minha Nascente, nasceu há tão pouco tempo, choramingava D. Flora mãezinha de Nascente ao Sr. Pólen , que dizia ligue não Flora, nossa Nascente é valente, você não viu que mesmo amando o Poente ela te fez germinar no Nascente?! Lembra que planejamos tudo direitinho e na hora que o Sol mais forte despontava nossa Nascente nascia , que alegria não foi naquele dia! Ela forte, robusta, mimosa que só quando te vi Florinha, meu amor, pela primeira vez na ponta mais alta desse nosso Baobá! Você lembra?! Ahhh, minha querida, não chore ainda...não, e encostando-se em seu rostinho disse-lhe com muita ternura: nossa Nascente, nosso rebento, nunca nos deixará, um dia, quando nós menos esperarmos a veremos e a nossos netinhos a germinar, acenando para nós de lá para cá, sim, assim como nós fazemos hoje em nosso querido baobá...`assim naquela tarde daquele dia via-se uma pequena folha, porém forte e bem verdinha com algumas lanugens amareladas a olhar o Sol se pôr, sim, era isso que Nascente naquela tarde queria, simplesmente assistir ao pôr-do-sol naquele lado da floresta, mesmo por pouco tempo, e ali Nascente ficou por um longo tempo a não mais só sonhar com o Sol e a desejar as estrelas mas a buscá-los, por si, sem esperar a divagar,mas a criar, sendo assim, e ainda assim, a `Nascente` de Sr. Pólen e D. Flora , agora, de um jeito diferente, de um jeito: Nascente !.
Comentários
Postar um comentário
Seu comentário é muito bem vindo!!