O REGRESSO

Por: Joamila Brito


O caminho de casa nunca foi desconhecido para ela, a névoa nos olhos parecia ser obra daquela noite. O passo que sempre fora apressado adquiriu uma certa compulsão pela demora e insistia em não ignorar nenhuma pedra ou falseio da calçada. As luzes de todos os postes da rua estavam acesas, o cachorro da primeira esquina se esparramava no chão-dormitório. No bar da esquina seguinte, o cantor e tecladista habitual rememorava as dores dos clientes assíduos.
O retorno parecia o mesmo das noites comuns, exceto pelo cheiro acentuado de lágrimas e o borrão nos olhos, não causados por suas próprias lágrimas, ela já checara. O assombro da percepção alterada infundia medo nos pensamentos mundanos da jovem. “O que acontecerá se eu não conseguir afastar a abordagem de algum malfeitor ou o que será dos meus se eu não chegar em casa?”.
Ela tentou se apegar aos hábitos conhecidos que pudessem vir em seu socorro. Olhou para o homem que dormia embaixo da marquise da loja de roupas, mas que naquele momento estava acordado aproveitando a alimentação única do dia. Ela acenou, como fazia quase sempre, no entanto, ele não desgrudou os olhos e as mãos do prato. Ela entendeu que o homem merecia apaziguar suas carências sem interrupção e continuou a caminhada.
A mulher entrou na padaria que ainda estava de portas escancaradas e viu a vitrine ostentando uma fornada de sonhos, dos quais ela tanto gostava, mas o desejo pela comida não se manifestou. Ela saiu do estabelecimento após cumprimentar o atendente do balcão, que não respondeu. Talvez, o rapaz esperava que ela comprasse o de sempre e se decepcionou com a indisposição dela para o consumo, pensou.
O prosseguimento da jornada até em casa seria feito por uma rua estreita, asfaltada e com prédios altos que mantinham a rua morna mesmo depois da noite já ter envolvido o sol. Ela imaginou-se em um corredor rumo ao misterioso porque pensava que tudo pode mudar de uma hora para a outra. Porventura, dali a pouco tempo, as dificuldades diárias pelas quais ela passava seriam apenas memória. A pele preta não despertaria ofensas ou portas fechadas. A luta pelo alimento da família resultaria em mais do que a simples sobrevivência. Além do cansaço no corpo e dos olhos enevoados, a mulher começou a sentir o peito pesado, quase como se estivesse sendo sufocada. A concentração na própria respiração levou ela a perceber que não conseguia definir se já vivera muito ou pouco até então.
Às duras penas, a moça alcançou a praça que distava poucos metros da residência onde morava com os pais e irmãos mais novos. Ela olhou para a janela de outra casa, exatamente em frente ao banco da praça, habitada por uma mulher de sorriso largo, por quem ela nutria os melhores motivos de paixão que o seu corpo experimentara. Ela imaginou ter visto a silhueta da mulher, através da fresta da cortina, por isso, sentou no banco da praça esperando que ela notasse a sua presença e saísse para conversarem um pouco antes de se entregarem ao sono.
Ao sentar, o peso das pernas, a respiração ofegante e a visão embaçada se curaram como por efeito de mágica. Ela fechou os olhos e recostou a cabeça no próprio ombro para apreciar melhor a sensação de leveza na alma. A jovem ouviu uma voz feminina lhe desejando boas-vindas em seu regresso para a verdadeira casa. A voz não era de sua mãe e nem de sua namorada, no entanto, ela conhecia o tom amigável, que ouvia vez ou outra como uma emissária da consciência. Então, ela abriu os olhos e observou uma praça remodelada. A mulher que falava em seus pensamentos estava sentada logo ao lado, reafirmando, com palavras, os talentos de uma boa anfitriã: “Venha em paz não importa de onde e todos os que lá ficaram permanecerão contigo, não importa o quando.”

Comentários

  1. Sim, uma ode aos que ficaram, choraram, e que seus desespero se transformem em pequenas certezas: "- Eles vivem!"

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  2. Quando a sensibilidade encontra as palavras é bonito de se ver... Amei a leveza ao tratar temas profundos... Em cada linha, uma reflexão proposta.

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  3. 🥺 Que linda forma de narrar tal tipo de despedida e de nos fazer refletir sobre o todo do caminho, entre a chegada e a partida(da qual ninguém poderá se esquivar)... Todo dia pode ser o último dia! Aproveitemos para plantar as melhores sementes. Gratidão pelo rico texto.❤️😘🌹👏🏿👏🏽👏🏼👏👏🏾👏🏻

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