PARA CONHECER: CONSIDERAÇÕES SOBRE O LIVRO O PROGRESSO, DE LÉON DENIS
Com referências em postulados espíritas, especialmente nas leis morais, no livro O Progresso, que é fruto de conferências realizadas nos idos de 1880, Léon Denis traça um paralelo entre as instituições de outrora e aquelas que surgiram na França pós-revolução de 1789 e que voltaram à cena, com a proclamação da Segunda República francesa já na metade do século XIX.
Há em sua análise, o entusiasmo dos primeiros tempos em que o liberalismo e a democracia moderna, fundidos a ideais humanitários, ganhavam corpo em contraposição ao absolutismo e às formas arcaicas de organização econômica e social de uma França monárquica, ainda tão recente na memória do país, e apontavam uma perspectiva de justiça social. Diante disso, a leitura do livro deve ser feita com reservas ante os trechos entusiastas à nova ordem que se consolidava à época: a ordem capitalista.
Como doutrina filosófica que busca, através de uma ciência de observação e análise do mundo dos Espíritos, provocar, em seus adeptos, transformações morais pelo refletir-agir-e-refletir no bem, o Espiritismo se torna ferramenta útil para nortear a vida humana. Por conseguinte, influi na aplicação da moralidade em nosso cotidiano e na construção de uma ética para se viver em sociedade, construindo o bem comum.
O exercício, porém, de relacionar as leis universais, que o Espiritismo apregoa, com o contexto social em que se vive – proposta de Léon Denis em O Progresso – tem suas limitações históricas. Daí, a necessidade de novas atualizações nas interpretações que associam o corpo doutrinário a contextos históricos e conjunturas distintas; conforme avançam o curso da história humana e a nossa compreensão espírita sobre esse caminhar.
Todavia, a lógica que permeia o livro sobre como o progresso moral do indivíduo – entendido como Espírito imortal – desencadeia o progresso social, por conseguinte, o progresso das instituições, deve ser considerada atual, posto se basear no conjunto imutável das leis divinas. Ademais, o exercício de Denis em refletir sobre as vidas individual e coletiva, observando as consequências das escolhas desse indivíduo para o coletivo, e do coletivo para esse indivíduo, deve ser tomado como exemplo e nos impulsionar a realizar o mesmo esforço; mas, agora, com os olhos de quem vive o século XXI.
O livro demonstra, assim, a atualidade do Espiritismo como lupa que ajuda a desvendar as causas do estado de coisas em que vivemos. Afinal, distanciada de análises datadas, portanto, limitadas e limitantes, é que se destaca a universalidade do Espiritismo por este se pautar em leis que regem a moral humana e que fazem parte das leis da natureza posto serem feitas por Deus. Criação que, por nascer da fonte maior de bondade e justiça, corre para a fraternidade e amor universais. Em outras palavras, retornam ao Criador (Deus) à medida que progridem as criaturas.
Direi mais: àqueles que assumem a tarefa de olhar a vida humana, especialmente a vida de relações, sob a ótica espírita, exige-se uma conduta sóbria pelo esforço de não se levar pelos arroubos das paixões que as ideias de sistema inflamam. É salutar o diálogo com as correntes de pensamento que formam as utopias e as ideologias, desde que não se queira fazer o Espiritismo, refém de nenhuma delas. Por mais atraente que possam parecer as demais doutrinas, o Espiritismo tem seu próprio fundamento que são as leis eternas, as leis morais, ou seja, as imutáveis leis de Deus. Ele se reserva à toda humanidade, independente de credos, raças, gêneros ou classes sociais.
Coerente com a lei da reencarnação, na qual se apoia, a Doutrina Espírita compreende que o status e as características da persona que a alma assume são circunstanciais, conforme as necessidades desta, em cada encarnação. Junto da sobriedade na análise e no debate, a caridade se torna imprescindível. Ademais, não se constrói uma sociedade fraterna com violência – nem das armas, nem das palavras, pois haveria aí, uma contradição de termos e práticas que tanto a lógica como a história humanas já demonstraram.
Podemos, então, nos perguntar por que o espírita se ocuparia com as coisas mundanas, visto ter como meta maior a transformação de sua moral. Coisa que só acontece de maneira individualizada, pois o transformar da alma se dá pelo progresso conquistado, através do conhecimento intelectual e moral do qual a alma se apropria, a partir do aprendizado que alcança e cujas peculiaridades são conforme cada subjetividade, melhor dizendo, conforme cada Espírito encarnado.
Recordando o texto O Homem no Mundo, presente em O Evangelho segundo o Espiritismo, é dada ao encarnado a regalia de viver e usufruir da vida material desde que ele aja com equilíbrio e, no esforço para não se perder nas ilusões da matéria, mantendo em primeiro lugar a importância da vida espiritual. Observando a lei de sociedade, explicitada em O Livro dos Espíritos, que demonstra a necessidade do convívio entre os seres humanos para que estes tenham a oportunidade de cultivar virtudes e combater seus vícios. Guiada, por fim, pela máxima dos ensinamentos de Jesus que se resume em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo – e que na Doutrina Espírita se apresenta pelo lema Fora da Caridade Não Há Salvação – fica evidente a relação intrínseca entre se transformar moralmente e fazer o bem ao próximo.
Não há transformação moral sem a prática da caridade, e não há caridade sem transformação moral. Haja vista ser fundamental a virtude da humildade para que se possa fazer o bem indistintamente, ser indulgente e perdoar. Diante disso, sob pena de se distanciar da lei de justiça, amor e caridade, é impossível virar as costas à vida coletiva ou restringi-la somente a seus pares. Afinal, por mais que o parentesco corporal incida na educação do Espírito encarnado, há uma ligação muito mais forte que é o parentesco espiritual. Somos Espíritos! E, encarnados, fazemos todos parte da mesma família que se chama Humanidade.
Olhar e cuidar somente de si ou dos seus é antes um sinal de egoísmo e de acomodação, do que de impotência ou de humildade como alguns querem fazer saber. Afinal, o dever – essa obrigação moral que cada ser humano tem no íntimo; que é a batalha travada pela alma, contra os vícios que possui – começa precisamente no ponto em que tuas escolhas ameaçam a felicidade do outro. Além disso, se o sentido da encarnação é atingir a perfeição, é também, contribuir para a criação de Deus.
É claro, porém, que cada alma encarnada traz consigo tarefas por cumprir e a liberdade de escolha que direciona seu caminhar pela Terra. Por isso, é inútil e antiespírita exigir que o outro siga na mesma estrada que tu consideras adequada. Obrigar o outro a caminhar sob teus passos é uma atitude antidoutrinária, porque a liberdade de pensamento, a liberdade de consciência e a liberdade de escolha estão, junto com a caridade, no âmago do Espiritismo.
Voltemos agora ao livro de Léon Denis, propriamente dito.
O primeiro ponto a destacar é o esclarecimento que Denis faz logo na Apresentação desta obra. Diz o autor que deixará de lado a discussão sobre o progresso material para dar atenção somente ao progresso moral que ele já apresenta como sinônimo de “aspiração pelo melhor, pelo belo, pelo bem [...] uma força íntima e maravilhosa que distingue o homem do animal.”. Vai além! Segundo Denis, “do ponto de vista social, o progresso é a caminhada para um estado de coisas cada vez mais de acordo com a Justiça e a Razão.”. Caminhada esta construída pelo esforço humano, pelo esforço de um ser que é livre no seu pensar e em suas escolhas.
Já neste início, Léon Denis demonstra a ligação entre a lei de progresso, lei de trabalho e lei de liberdade. Relação esta a que o ser humano, por mais que relute, está submetido, porque é a ordem das coisas feita por Deus; uma ordem universal e eterna. Assim, o desejo do melhor, do belo e do bem, embutido em cada ser humano, impulsiona a vontade de alcançar essa condição, de progredir. Vontade esta que para se realizar, precisa ser firme, necessitando do esforço de cada alma para destruir os vícios e alcançar o patamar das virtudes. E, como já bem falamos, para que o avançar moral aconteça é fundamental a vida de relações na qual poderemos vivenciar a práxis espírita.
Aqui, permitam-me um à parte para mencionar rapidamente a referência que Léon Denis faz sobre o progresso material quando ele o nomeia como “o espetáculo da matéria por toda parte dominada, submetida à vontade humana”. Neste pequeno trecho, Denis faz entrever a relação entre a moral, expressa na vontade humana, e a matéria.
Por sinal, essa relação é observada não somente nos avanços científicos, tecnológicos ou nas invenções e construções, regidas pela força humana que tornou as sociedades mais complexas. Ela está também presente na própria lei dos fluidos, pois o pensamento humano, movido pelo desejo e vontade do próprio homem, é capaz de modificar os fluidos ao seu redor. Explicações, por sinal, mais bem apresentadas pela Ciência do Magnetismo do que por mim.
Feito este à parte que tinha como objetivo reforçar o papel que o ser humano tem na condução de sua vida e da vida do planeta como um todo, volto ao livro O Progresso, de Léon Denis, para destacar o passeio histórico que ele faz demonstrando os avanços morais nas formas de organização social que a humanidade cunhou ao longo dos séculos. Neste ponto, três aspectos bem característicos do pensamento de Denis são apresentados:
1) a crítica ferrenha à opressão sobre o povo, feita pelas religiões, especialmente a religião católica; 2) a aposta que ele faz na educação das camadas populares, que passa pelo acesso aos livros associado ao esforço do próprio aprendiz e 3) a convicção de que o pensamento humano é livre, que só deve contas a Deus, e por isso consegue se desvencilhar até dos mais terríveis grilhões sociais ou morais.
Ainda no rápido passeio histórico de Léon Denis, que começa pela democracia na Grécia Antiga – onde mulheres, escravos e estrangeiros não eram considerados cidadãos, mas que sinalizava um avanço por trazer para o lugar de mediador dos impasses políticos, o debate de ideias, ao invés das disputas armadas – e vai até a Revolução Francesa – quando o poder político e a ascensão social se desligam das condições de nascimento e de família, e se enquadram na ideia da meritocracia –, chamo atenção para o seguinte fato:
Se na Grécia Antiga o modelo organizativo é maculado pela escravidão como já aponta Léon Denis em seu livro; na França revolucionária e, mais precisamente no sistema capitalista que se tornará hegemônico no mundo até os dias atuais, será a lógica perversa do capital – que prioriza o lucro, a acumulação privada da riqueza, através da exploração do trabalho humano – que manchará o ideal de justiça e bem comum. Mas, esta crítica ao capital não está em Denis que vivia o sonho de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, renascido na França do século XIX, e que vai inspirar as leis francesas e o Direito moderno no mundo.
Nos anos e na França de Léon Denis, o ideal de Liberdade, Fraternidade e Igualdade parecia ter alcançado nas leis e na economia da época o caminho para se tornar realidade... Hoje, olhando o mundo ao nosso redor, já sabemos que o sonho ainda não se concretizou. Digo mais: a própria natureza do sistema capitalista – sustentada por um trabalho coletivizado e por uma apropriação privada da riqueza, e que privilegia a mercadoria, o lucro às vidas humanas – já dava pistas de que, por mais avanços trouxesse aquele sistema ante os sistemas que o precederam, cedo ou tarde, sua natureza iria se sobrepor aos ideais humanitários.
É duro dizer, mas ainda vivemos uma humanidade muito rica materialmente, mas de pouco avanço moral. Vivemos longe de uma civilização completa que, segundo os Espíritos, só se concretizará quando o nosso viver for pleno e harmônico à lei de justiça, amor e caridade. Constatamos na carne que as desigualdades sociais são resultado do egoísmo e do orgulho que atrapalha o progresso individual e coletivo... e diante deste estado de coisas, fica evidente que também vai por água abaixo a ideia de meritocracia que inspirou iluministas e os insurgentes da Revolução Francesa. Diga-se de passagem, que a compreensão do mérito que o Espírito alcança, a partir dos seus esforços em suas escolhas no bem, está na relação com a lei de igualdade que, por sua vez, se refere a como fomos, todos, criados: Espíritos simples, ignorantes, mas inteligentes, morais e perfectíveis.
O fato é que a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, esse ideal tão almejado por Léon Denis, ainda está no porvir da humanidade terrena. Não como um lema de uma revolução ou de um sistema de ideias, mas como parte da lei de progresso que nos inspira a querer o melhor, o belo e o bem. Por isso, ele não é exclusividade de uma doutrina política e econômica qualquer. Para alcançá-lo, teremos antes que alcançar nossa transformação moral. É este o nosso maior desafio.
Finalizo, então, minhas reflexões, com o chamado que Léon Denis faz nas últimas linhas de seu livro que é, antes um chamado de Allan Kardec e dos Espíritos, e bem antes, um chamado do próprio Jesus:
“Diante dos horizontes infinitos da imortalidade, os males do passado e as provas sofridas serão qual uma nuvem fugidia no meio de um céu sereno.
Considera, portanto, no seu justo valor, as coisas da Terra. Não as desdenhe porque, sem dúvida, elas são necessárias ao teu progresso, e tua obra é contribuir para o seu aperfeiçoamento, melhorando a ti mesmo, mas que tua alma não se agarre exclusivamente a elas e que busque, antes de tudo, os ensinamentos nelas contidos.
Graças a eles compreenderás que o objetivo da vida não é o gozo, nem a felicidade, porém o desenvolvimento por meio do trabalho, do estudo e do cumprimento do dever, dessa alma, dessa personalidade que encontrarás além do túmulo, tal como a tenhas feito, tu mesmo, no curso dessa existência terrestre.”
Assim, como bem disse aquele cujo Reino não é deste mundo: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam. Mas, ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.”.
Referências
DENIS, Léon. O Progresso. 4 ed. Rio de Janeiro-RJ: Celd, 2012.
Infelizmente ainda estamos longe desse progresso moral que nos trará o reino de Deus aqui na terra, esse sistema capitalista, que apesar de condenado ao fracasso, não acaba e está contribuindo, e muito, para o atraso desse progresso moral que tanto ansiamos. Que possamos continuar unidos na luta contra esse sistema responsável pelas injustiças e desigualdades sociais, fortalecidos pela nossa fé e no progresso da humanidade!
ResponderExcluirExcelente texto (só mt longo), corroborando os ensinamentos da Doutrina Espírita. O progresso moral não está 100% implantado,mas a olharmos para trás podemos perceber que já caminhamos um bocado.Sigamos estudando,realizando o trabalho no bem e nos esforçando para vencermos os vícios e as paixões, apesar da dificuldade que a matéria (o corpo) provoca.
ResponderExcluirExcelente os pontos levantados e explanados sob o contexto histórico-social atual do livro O Progresso.
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