NA CASA DO POVO AVISTO VOZES


Os traços informais da multidão exacerbam os meus sentidos básicos. Minha audição pouco complacente se escandaliza com o retinir das vozes que parecem cegas. Enquanto a visão de amplo alcance lê os dizeres, otimistas, assim como os fatídicos. Tambores aproximam-se e eu tenho um impulso de correr, meu pulso está acelerado, pronto para propagar adrenalina. O meu lar é tranquilo e perfumado, mas descobri que este ajuntamento no meio da rua, a casa do povo, também é minha casa.
Vejo uma família inteira – pai, pai e filhos – segurando cartazes complementares, formando indignação una: NÃO ME PEÇA PARA SER CONIVENTE. Outros se manifestam com a brandura própria dos que não são mais violentados pelo medo: O AMOR SEMPRE VENCE. Percebo, ainda, os mais exaltados, prontos para extravasar a dor dos continuamente oprimidos: A REVOLUÇÃO FRANCESA ESTAVA CERTA. GUILHOTINA NELES.
De tanto ler as opiniões que repercutem na avenida abarrotada, busco uma forma de ocupar minhas mãos com palavras, já que a minha voz solitária é fraca. Pergunto aos companheiros de protesto onde conseguir um cartaz, quero carregar, nos meus braços, as reivindicações comunais.
Encontro, em um beco lateral, algumas pessoas produzindo material para o ato que, apesar de cheio, ainda não começou oficialmente. Agradeço por a rua estreita servir de abrigo temporário, enquanto fujo dos grandes estímulos. No canto da calçada, uma mulher negra de cabelos curtos trançados está com as mãos e roupas salpicadas de tinta colorida. Ela começa a imprimir, com pinceladas precisas, um novo apelo em um pedaço de papelão. Aguardo em silêncio, olhando para ela, a frase ser concebida: A CADA NOVO DIA POD…
“Tá gostando, moça?” Ela indaga-me, de repente, sem desgrudar os olhos do trabalho.
“Desculpa atrapalhar.” Respondo, envergonhada.
Fico com vontade de ir embora, mas cada letra que a cartazista pinta me faz querer ver a próxima, assim, permaneço. Ela termina de escrever a declaração: A CADA NOVO DIA PODEMOS FAZER MELHOR. VOTE CONSCIENTE! Então, levanta primeiro o olhar, depois o corpo inteiro e me cumprimenta com um beijo no rosto.
“Quer levar contigo?” Ela pergunta.
“Não tá encomendado?”
“Oxe, aqui, não tem isso de encomenda não, é só pegar e levar.”
“Queria um mais forte. Sabe quem fez aquele da revolução francesa?”
“Quase todos circulando por aí passaram pelo meu ateliê.” Ela fala, mostrando o material de pintura disposto no chão.
“Sério, você quem escreveu tudo isso?” Falo demonstrando minha admiração. “Parece muito trabalho e muitas ideias.”
“Muito trabalho até que é, mas as ideias não são todas minhas.”
“Quem te ajuda?”
Ela olha em volta, e eu repito o gesto. Quando entende que ainda estou esperando a resposta, ela continua.
“Tu acredita no mundo espiritual?”
“Como assim?!”
“Olha, se tu não acredita nem vale a pena eu tentar te explicar...”
“Acredito, claro!” Digo, impulsivamente, mais por curiosidade do que pela crença.
“Acredita mesmo na existência de Espíritos?”
Ela pergunta me encarando, fixamente, e eu só não desvio o olhar, porque naquele momento a convicção dela me institui como uma ouvinte completamente atenta.
“Acredito um pouco… Quer dizer, não tem como todas as histórias serem mentirosas.” Finalmente, respondo.
“Tá certo. Vou te falar quem me ajuda, ou melhor, quem eu ajudo. A maioria das ideias é dos Espíritos. Sou apenas a revisora. A última reforma ortográfica pegou todo mundo desprevenido lá do outro lado.”
Eu abro um sorriso. Ela continua séria, como se precisasse contar tudo de uma vez.
“Sabe, tem uma frase muito conhecida que diz que são os Espíritos que frequentemente nos dirigem. Ou seja, várias decisões e coisas que pensamos vêm direto da espiritualidade. Por isso, às vezes, eles precisam produzir um argumento mais visível.”
“Os Espíritos são como uma equipe inteira de publicidade, é isso?!”
Desta vez, ela gargalha.
“Lembra o cartaz da Revolução Francesa que tu gostou? O Espírito que me pediu pra fazer não viu a revolução, nem sei se ele conheceu a França quando tava encarnado. Ele é um estudioso da história e defende que a gente não deve ficar de braços cruzados quando quer que as coisas aconteçam. A citação dele é pura violência à primeira vista, mas atendi a solicitação, porque percebi que, hoje em dia, a gente tem meios suficientes pra não precisar ser literal. Além disso, é uma expressão impactante, fica bem no jornal da noite.”
“Ele também pediu pra você fazer a placa que me ofereceu?” Apontei para a obra recém-finalizada.
“Não, esta aqui é de uma amiga espiritual que foi amiga dos meus pais, eles se conheceram na juventude. Ela foi perseguida pelos militares durante a ditadura e acabou morrendo no exílio. Apesar de tudo, ela se mantém com esperança no futuro e firme na luta.”
Admiro a expressão feliz da moça que fala de seus companheiros espirituais com tamanho respeito. Eu que não sei no que acredito, praticamento, os vejo no rosto dela. Ela interrompe minha contemplação com mais uma pergunta.
“Tu não gostou de nenhum dos cartazes mais emocionais?”
“Quem foi que escreveu? Deve ser alguém que acredita, fervorosamente, nas pessoas pra falar do amor e afins com tanto desembaraço.”
“Olha que, talvez, tu tenhas razão.”
Apesar do acanhamento repentino que não compreendo imediatamente, ela continua.
“O Espírito sou eu mesmo. Eu também gosto de espalhar pinceladas autorais pelos protestos, pois, quando os Espíritos não estão nos dirigindo, precisamos assumir o volante. A gente só não pode ficar é parada!”

Comentários

  1. Algumas vezes, em manifestações, senti a presença de Espíritos participando junto comigo. Lembro a vez que me vi "do nada", muito emocionada... Sem entender de onde vinha aquela emocional, olhei pros lados e vi que estava logo atrás do grupo que trazia faixas e cartazes pelos presos e desaparecidos da ditadura Compreendi que era dali que vinha a emoção. Fiz uma prece. Antes de me tornar espírita, orar em manifestações era a última coisa que faria. Apesar de ter visto várias místicas do MST, não me via incluída naqueles momentos. Hoje, vou às ruas e oro.... A oração ali faz todo sentido pra mim, agora. Como transmissão de pensamento, a prece atrai e emana bons fluidos.

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    1. O médium não é médium só no centro, né? kkkk adorei saber da interessante experiência, Klycia! BJ

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  2. Mergulhei nesse conto emocional através das lembranças das manifestações que já participei.

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  3. Adorei o Conto, Joamila! Como espíritas, sabemos que eles (os espíritos), estão em toda parte e influenciando em todas as manifestações humanas.

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  4. Nunca tinha parado pra pensar no quanto os Espíritos aproveitam todas as oportunidades para nos ajudar e também continuar as suas lutas aqui na Terra

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