Novas alianças, sem medo e com esperança.


Ao longo da nossa evolução como cristãos, nós desenvolvemos uma expertise: Aprendemos desde cedo a lidar com o medo, e a converter esse medo em alianças. Foi assim quando só podíamos falar nas catacumbas, pois a perseguição tentava calar a voz dos adeptos do Carpinteiro de Nazaré na Galileia, que levavam seus ensinamentos para todos os cantos e vivenciavam a esperança sem medo, mesmo diante das feras e das chamas das fogueiras nos circos romanos.

Não foi diferente quando em 09 de outubro de 1861, queimaram nossos livros no chamado Auto de Fé em Barcelona, que à despeito dos inquisidores acabou se transformando numa grande manifestação de apreço da população espanhola por aquelas obras espíritas enviadas por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre e que agora ardiam em chamas.

Mas, os populares curiosos venceram o medo e foram vasculhar nas cinzas e, encontrando intacto um dos exemplares de O Livro dos Espíritos, fizeram-no chegar às mãos do casal Kardec, Allan e Amélie[1]. Sim, a Espiritualidade indagada pelo Codificador não lhe negou o direito a reclamar seus livros de volta antes da destruição pelo fogo, mas lhe assegurou que o Auto de fé se tornaria um panfleto muito mais forte, porque faria as pessoas buscarem os motivos pelos quais aqueles livros foram queimados, fazendo-as conhecer toda a obra[2].

O Espiritismo crescia em número de adeptos e leitores nos países e colônias franco-fônicos, como a Argélia onde dirigentes da religião hegemônica chegaram a publicar uma brochura com o título “Carta circular e pastoral sobre a superstição dita Espiritismo”[3], pois viam-no como uma ameaça tomando seus fiéis. Não tomou, somou-se novos cristãos nessa nova modalidade de religiosidade orientada pelos Espíritos.

No Brasil, com punição prevista no Código Penal de 1890 (art. 157)[4] que vigorou até os anos 1940, nós, os Espíritas, não podíamos sequer nos reunir, saindo há pouco da clandestinidade por volta dos anos 60 do século XX. Dizia a Lei em questão em linguagem daquela época:

Art. 157. Praticar o espiritismo, a magia e seus sortilegios, usar de talismans e cartomancias para despertar sentimentos de odio ou amor, inculcar cura de molestias curaveis ou incuraveis, emfim, para fascinar e subjugar a credulidade publica:

Penas - de prisão cellular por um a seis mezes e multa de 100$ a 500$000.

§ 1º Si por influencia, ou em consequencia de qualquer destes meios, resultar ao paciente privação, ou alteração temporaria ou permanente, das faculdades psychicas:

Penas - de prisão cellular por um a seis annos e multa de 200$ a 500$000.


Hoje, observamos, estarrecidos, que um em cada três pessoas autodeclaradas espíritas, ainda apoiam manifestações reacionárias no campo do fascismo, que por sua natureza são diametralmente opostas ao que pregava o Cristo e tanto mais contraditórias com o que está expresso em toda a Obra da Codificação Espírita, que estabelece, por exemplo, parâmetros aproximados do que a espiritualidade superior define como atributos do Homem de Bem.

E nos perguntamos: Como é possível distorcer tanto os ensinos e a exemplificação do Cristo que era contrário à violência e ao uso das armas para ferir e matar quem quer que fosse quando no vale do Cedrom, por exemplo, ordena a Pedro “Guarde a espada!” quando este corta a orelha direita de Malco, servo do sumo sacerdote (João 18:10) que cumpria sua ordem de prisão ao Mestre?

Ao arrepio da memória do Codificador, corrompem as prerrogativas do Homem de Bem que recomenda:

Possuído do sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem, sem esperar paga alguma; retribui o mal com o bem, toma a defesa do fraco contra o forte, e sacrifica sempre seus interesses à justiça. [...] O homem de bem é bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção de raças, nem de crenças, porque em todos os homens vê irmãos seus.[5]

 

A verdade é que esses ensinamentos, que o Espiritismo nos apresenta, longe de poderem ser usados como credenciais de superioridade sobre outras religiões, pelo contrário, nos exige a compreensão do quanto estamos distantes da perfectibilidade relativa que nos é possível atingir e o mar de virtuosidades que nos separa do Cristo. Portanto, nos serve de alerta a nossa consciência para a necessidade de buscarmos nos melhorar evoluindo sempre seguindo as diretrizes reveladas por vontade de Deus e sob a supervisão direta de O Espírito da Verdade.

Mas, se essa é a meta do verdadeiro espírita: Buscar ser um homem de bem, por que ainda hoje o Espiritismo desperta tanto medo e desconfiança entre alguns adeptos menos esclarecidos de outras religiões como, aliás, já acontecia desde a codificação dessa Doutrina pelo professor Rivail?

O bom senso (e a boa vontade) nos diz que esse medo injustificável das atividades espíritas não é razoável. Da mesma forma, custa-nos encontrar algum sentido no pavor que sentem alguns irmãos de confissão cristã pelo Presidente Lula, assim como tiveram da Presidenta Dilma. Seria por ser ele um nordestino e ela uma mulher? Atribuem à candidatura de Lula um temor evocando pautas moralistas que jamais foram executadas nos governos progressistas do PT, como por exemplo, a liberação das drogas e do aborto de forma indiscriminada. Acabam por confessar sua ignorante homofobia, e defendem a narrativa fascista de que o campo progressista promove a corrupção dos símbolos nacionais.

Por favorecermos as ações de combate à desigualdade e a discriminação social, estaríamos, segundo alguns, indo contra a vontade de Deus que por algum motivo estranho aos Seus atributos divinos (único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições)[6] desejaria a manutenção das injustiças e mazelas de nossa sociedade, pois seria assim que Ele supostamente quer que se mantenha, acreditam alguns, e quem às combate promovendo o Bem Comum a todos indistintamente, está indo contra Sua vontade.

Historicamente, nós, os que pretendemos ser seguidores do Cristo, enfrentamos essa perseguição amedrontada daqueles que nos julgam perigosos demais como antes, quando viram ameaças nos ensinamentos de Jesus contra as conveniências do poder e da ordem econômica dominante. Foi assim que Saulo, achando-se no dever de proteger o mosaísmo judeu do perigo da difusão daquela nova Doutrina, cioso da palavra de Estevão que pregava com eloquência na Casa do Caminho[7], impôs morte aos primeiros cristãos. Um medo irracional e injustificado.

De forma análoga hoje temos outros pseudo-defensores do Cristianismo, que não se importam com a dor e a morte de mulheres, pessoas em peles pretas, povos indígenas, pessoas em situação de rua, a população LGBTQIAP+ e tantos outros que sofrem algum tipo de discriminação, enfim, os considerados disgênicos que por sua existência defendida por nós os  progressistas, que colocamos em risco o futuro glorioso de um Brasil definitivamente “purificado”, pois nos opomos teimosamente aos critérios galtonianos[8] de pureza racial.

Por isso precisamos que o nosso povo lembre que já experimentou entre 2002 e 2014 o início de uma era de progresso social e econômico possível nos governos do PT com Lula e Dilma. Que saibam que não estamos propondo nenhuma nova aventura, nenhum passo no caminho incerto do desconhecido. Que nossa gente se conscientize do que perdeu nesses seis anos de golpe gestados entre 2013 e 2014, concretizado em 2016 com o início do golpe e sua continuação aprofundada e cruelmente agudizada desde 2018, para prejuízo incalculável de vidas e de patrimônio dos brasileiros em todas as suas dimensões materiais e imateriais.

No entanto, precisamos saber: 2023 não será como 2002. O Brasil e o mundo são outros e não será fácil combater a serpente do fascismo que dividiu nosso povo e contaminou parte das instituições e as das armas em nosso país. Não podemos alimentar o pensamento mágico de que Lula representa a figura mítica de São Jorge vencendo o dragão e assim em outubro de 2022 e imediatamente a partir de 01 de janeiro de 2023, tudo ficará prontamente resolvido pela força do símbolo da retomada da faixa presidencial por Lula, aliás, como deveria ter acontecido já em 2018, se não fosse pelo golpe institucional.

A verdadeira luta começará em 2023, porque não acreditemos que irão cessar magicamente todo o processo de lavagem cerebral, a gestão do medo e a inoculação da ideologia fascista que ainda acomete cerca de trinta por cento de nossa população, incluindo os que ainda acreditam, surpreendentemente, estar, honestamente, lutando pela defesa dos valores cristãos e da família. Eles ainda poderão ser manobrados à vontade das forças obscuras que se instalaram no Brasil e que estarão em clima de acirrada revanche pela derrota que vão sofrer em nome da luz e da esperança.

Será no alvorecer desse novo tempo, nesse momento de restauração do tecido social tão esgarçado de nosso país, que seremos chamados ao bom combate. Porque não se trata de uma questão de convencimento dos que insistem no erro e no mal. O que precisamos é construir novas alianças com os que têm desejo pelo bem, pela vida e pelos mais nobres valores humanos expressos nas leis morais ou leis divinas[9], que nos foram dadas a saber pelos emissários do Cristo.

 

 

 

 

 

 

 

   

 



[1] Revista Espírita - nov. de 1861: “Resquícios da Idade Média".

2 Obras Póstumas, Allan Kardec - 2ª Parte, "Auto-de-fé em Barcelona".

3 Revista Espírita - nov. de 1863: “Pastoral do Sr. Bispo de Argel contra o Espiritismo”.

4 Decreto nº 847, de 11 de outubro de 1890. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-1899/d847.htm.

 

 

[5] O Evangelho segundo o Espiritismo, Capítulo XVII — Sede perfeitos, O homem de bem. Item 3.

[6] O Céu e o Inferno, Primeira Parte – Doutrina, Capítulo VI - Doutrina das penas eternas, Argumentos a favor das penas eternas.

[7] Atos dos Apóstolos 6:8-14

[8] GALTON, Francis. Hereditary Genius: An Inquiry Into Its Laws and Consequences.1869.

[9] O Livro dos Espíritos. Parte terceira — Das leis morais. Capítulo I — Da lei divina ou natural.

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Comentários

  1. A principal aliança a que devemos nos propor é a com Jesus, para que tenhamos forças em superar nossos maus pendores e chegarmos até Deus. Aliar -se a Jesus é aliar-se ao próximo, pela fraternidade universal oriunda do Criador. Hoje, ainda estamos longe desta união plena, ainda somos mulheres e homens partidos... Mas tentemos nos associar àqueles que estejam dispostos a vencer as barreiras da intolerância. JUNTES, somos mais!

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  2. Gostei do texto, bem escrito e bem fundamentado. Parabéns Elber.

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  3. Há muito a construir, primeiramente em nós através de atos conscientes no Bem e na Indulgência, e simultaneamente em nossas interações sociais. O Bolsonarismo é ideal plasmado por muitas mentes que se sentem confortáveis e acolhidas na massa, a ponto de defenderem conceitos que dantes rechaçavam. E Elber narrou com mestria que a jornada para vencer o fascismo será árdua.

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  4. Boa noite!
    Uma verdadeira revisão bibliografia desse Momento Histórico que estamos passando. Na oportunidade de aprendermos bem mais do que ensinamos, durante: provas e expiações, lutas e resistência, bom combate e instantes de Paz e Bem, já passados, no presente para um futuro de vitórias!
    Assim recuperaremos caminharmos para novos ciclos evolutivos.
    Parabéns pelo texto!
    Grato.

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  5. Uma boa passagem pela História. O medo é parte integrante de nossas sobrevivências, responsável direto pelo desenvolvimento do racional. Infelizmente, Elber, teimamos em colocar ele como razão em todos nossos atos. O egoísmo se traveste em medo indentificado naquilo que nos é diferente ou nas coisas que escapem da compreensão de senso comum. É aí que pessoas sonham em Mundos de Regeneração tão próximos de nós. Disto decorre uma classificação social e a consequente escolha de nossos pares. Não sabemos usa a "opção" sem egoísmos.

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