Por que ainda há guerra?
Imagem: Quadro Guernica. Picasso (Um manifesto contra a guerra).
Diante da evolução da humanidade, as guerras tenderão a desaparecer, pois são frutos da “predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões… à medida que o homem progride, menos frequente se torna a guerra, porque ele lhe evita as causas” (O.L.E questão. 742).
Muitas ruínas espirituais, advindas do passado, fomentam, hoje, embates entre nações e coletividades que disputam o poder geopolítico. Alguns desses conflitos, por se darem em nações consideradas do “terceiro mundo”, são completamente ignorados pelos países mais ricos que estão no centro do poder mundial, bem como pela mídia tradicional; como consequência as atrocidades e absurdos cometidos em regiões do continente africano e outras consideradas sem importância capital, são relegadas ao abandono, menosprezadas por grande parte da população.
Diante da dor e crueldades em tempos de embates, poderia ter a guerra alguma consequência positiva? Alguma utilidade para a humanidade? Ao deitar o olhar sobre o passado, vemos que as lutas entre os povos provocaram mudanças geográficas, culturais e tecnológicas, consequentes da passageira subjugação e domínio de povos. A interação obrigatória resultava em troca de conhecimentos que gerava progresso, dado abordado na questão 744 de O.L.E. em relação à necessidade da guerra; “[...] Subjugação temporária para pressionar os povos, a fim de fazê-los progredir mais depressa”.
Não se pode deixar de enfatizar que, sendo a Terra um planeta de provas e expiações, seus moradores se constituem, em quase sua totalidade, de Espíritos imperfeitos, adeptos ainda da linguagem da ignorância e da violência, encontrando-se a milhas de distância de compreender o Amor. Assim, o ímpeto para a guerra é natural à condição evolutiva em que estagiam, mas chegará o dia, em que o homem, tendo progredido intelectual e moralmente, evitará as causas que levam aos conflitos e guerras, superando as diferenças, através do sentimento de fraternidade.
Nessa fase de aprimoramento humano, decorrerá a purificação do Espírito, que submeterá toda a aquisição de conhecimento ao conceito moral, melhorando as leis humanas, conscientizando-se do senso de justiça e da igualdade de direitos e deveres. Suprindo, assim, a humanidade terrena com sentimentos mais nobres em relação ao próximo, tal qual já ocorre nos mundos superiores, cujos moradores, livres do orgulho e do egoismo, sentem aversão a tudo que representa o mal.
Se nos mundos mais avançados o amor já é entendido em sua plenitude, a mesma coisa não sucede na Terra, a realidade tortuosa que vivemos é consequência espelhada de nosso íntimo, cujas características refletem as densas sombras dos mais vis desejos e vícios de nossas diárias interações com a materialidade.
O domínio do instinto sobre o sentimento, conduz a alma insensata a se comportar pela lógica do egocentrismo, e para tanto, toda conquista é plausível, desde que satisfaça o interesse pessoal, a obtenção do lucro e a aquisição de vantagens, comportamentos permeados por toda uma coletividade que abusa do seu livre-arbítrio.
E nesse errôneo caminhar, tal qual um ditador, o homem persiste, cego, a pisar nos próprios espinhos que, inadvertido, semeia, fazendo então da dor, sua singular companheira que, mesmo enquanto provoca lágrimas, estimula-o no processo de aprendizagem intelectomoral. É ele, pois, o artífice incauto do holocausto a que é submetido.
O insistente desrespeito às Leis Divinas transforma este planeta no inferno de Dante: “O homem seria perfeitamente feliz se as observasse escrupulosamente, mas a menor infração dessas leis, causa uma pertubação cujo contragolpe ele experimenta, e daí resultam todas as vicissitudes. É pois, ele próprio a causa do mal, por sua desobediência às Leis de Deus” (R.E. 1866).
Mas, nem tudo está perdido. Jesus fez diversas predições durante seu missionato, dentre as quais: “os mansos e os pacíficos herdarão a terra”, logo, supomos que há um progresso lento, constante e gradual a ocorrer nos Espíritos encarnados e desencarnados que povoam o planeta e, assim, a Lei do Progresso fará que um dia, apenas as boas almas sejam dignas de habitar esse pequeno planeta.
Mas, convenhamos, a evolução não se faz de forma brusca. “Uma mudança tão radical quanto a que se elabora, não pode se realizar sem comoção; há lutas inevitáveis entre as ideias [...] entretanto, como as ideias novas são as do progresso, e o progresso está nas leis da natureza, elas não podem deixar de superar as ideias retrógradas” (R.E. 1866).
“Os cataclismos dos finais do tempo não estão relacionados somente aos flagelos naturais, dos conflitos armados, das forças militares em plena ação, mas principalmente, serão constituídos das convulsões sociais provocadas pelo embate de ideias, e, que permeará a transição do mundo de provas e expiação para o de regeneração. Assim, buscais esses sinais não nos fenômenos naturais, mas olhai para a própria humanidade e verás o embate entre aqueles que desejam progredir e os que insistem em permanecer atrelados ao mal, egoísmo e ao orgulho […] refletem dessa forma, o estado dos costumes e da sociedade que estará num povo, numa raça ou no mundo inteiro, na razão do estado da categoria de Espíritos encarnados que tiver preponderância (R. E. Março de 1866).
“As duas gerações que sucedem uma à outra têm ideias e pontos de vista diametralmente opostas. Pela natureza das disposições morais, mas sobretudo, das disposições intuitivas e inatas, é fácil distinguir a qual das duas pertence cada indivíduo. Para além dessa luta entre diferentes gerações de Espíritos, há a luta íntima de cada indivíduo, e aqueles que estiverem predispostos a assimilar todas as ideias progressistas”, secundarão o movimento de regeneração (A Gênese, As Predições – Cap. XVIII – São chegados os tempos).
Penso que essas gerações de Espíritos, mencionadas em A Gênese, encontram-se presentes há tempos, vivenciando o carrossel das reencarnações. Por um período, defendem ideias conservadoras e limitadas, por receio das mudanças, do novo. Mas aos poucos, desenvolvem, com o progresso intimo, o cultivo de pensamentos mais progressistas, abraçando, com ímpeto, as transformações socioculturais.
Esse duelo ideológico permeou a História da humanidade, e continua ferrenho nos dias atuais, ao longo de todo o percurso civilizatório, barbaridades eram aceitas com naturalidade pela sociedade vigente, a ponto de o homem escravizar o outro por causa da cor da epiderme, ou a mulher que tinha seu papel pessoal e social cerceado por uma composição familiar patriarcal. Hoje, esse embate permanece, e enquanto algumas almas caminham com o estandarte do futuro, outras insistem em carregar, orgulhosas, a bandeira do passado, saudosas dos tempos em que a força bruta era exaltada e personalizadas em seus deuses e mitos.
Não haverá, como muitos imaginam, uma destruição do mundo material, mas seremos confrontados com o fim do mundo imoral; que é o do preconceito, do egoísmo, do orgulho, da ganância e da intolerância. E esta nova comunidade humana, será construída, através das novas gerações de almas melhoradas no decorrer das experiências encarnatórias e de outras, oriundas das migrações espirituais, que virão dar sua contribuição, e que também povoarão a Terra, fazendo reinar, entre eles, a Justiça e a Fraternidade.
Através das experiências sucessivas, principalmente, aquelas dolorosas que deixam cicatrizes nos incautos filhos de Deus, e os levam às reflexões importantes, os conduzem, lenta e gradualmente, a acolher o progresso como projeto pessoal. Dirão, após intensas batalhas individuais, adeus ao ideal conservador, intolerante, fanático e, obedientes e, resignados, trabalharão na construção de um mundo mais condizente com a Lei de Amor.
Creio que essa transição perdurará ainda por muitos séculos, haja vista a predominância do mal entre nós. Há muito que vencer e construir sobre os escombros de uma sociedade indiferente e egoica para que o futuro reproduza o Evangelho em sua mais pura essência, sendo que “[...] as lutas contra os elementos desenvolvem as forças físicas e intelectuais; as lutas contra o mal desenvolvem as forças morais” (R. E. Outubro de 1866).
As religiões sofrerão um processo de burilamento interior, superando os dogmas e a fé cega, o homem perceberá que ele se faz Igreja, erguerá em seu íntimo um altar a Deus, onde suas virtudes serão ofertadas como prova do servo fiel ao seu Senhor, e consciencioso das Lei Divinas. Não mais os muros encarcerarão as verdades espirituais, pois todos saberão que o Pai sempre esteve no âmago de suas almas.
Todo esse estado de mudanças será construído ao longo do tempo, onde o velho e o novo estarão sempre num embate. Nesse choque de ideias e crenças, a evolução humana produzirá uma sociedade mais consciente de seus deveres individuais e coletivos, e o Amor tão exaltado pelos poetas, ansiado pelos amantes, debatido pelos filósofos e sublimado pelo Nazareno, será o veículo com o qual nos movimentaremos, naturalmente, e as guerras, farão parte de uma ilusão, de um obscuro passado, enterrado nas areias do progresso.
Gosto do exercício de usar as lentes do Espiritsmo pra pensar a vida em sociedade... Obrigada por partilhar sua visão. Compacto com boa parte do que vc escreveu... Vou refletir mais sobre. Beijo
ResponderExcluirObrigada por ter corrigido meu texto Klycia! Finalmente consegui me inscrever, agora vou colocar comentários nos textos anteriores que li.
ExcluirMarta,, boas reflexões sobre o momento atual. Acrescentaria ainda que na guerra estão interesses econômicos, o capital lucra com a guerra. Desse modo, o homem imperfeito não é o todo em mas um punhado de gente que está no poder. Precisamos levar as ideias do novo mundo para o maior número de pessoas, para que não tenhamos adeptos desde sistema da morte!
ResponderExcluirRealmente Lídia há muitas reflexões e análises a se fazer sobre esse tema tão instigante.
ExcluirGostei das reflexões suscitadas no texto.
ResponderExcluirBoas argumentações para o assunto,e com as fontes citadas TDS podemos ir em busca do que está nas entrelinhas.Resumindo o todo:Quando os homens forem bons,teremos boas instituições ,que espalharão para o mundo o caminho das pedras.
ResponderExcluirEsse tema das guerras nos leva a muitas reflexões, faz-me ficar pensativa.
ExcluirMarta, parabéns. "É preciso que carreguemos conosco o espelho. Pois o orgulho impede de nos conhecermos conscientemente. Andamos como que "zumbis", corpos em movimentos sem a essência da Alma, esta em evolução. Olhamos e lemos o "entorno" com olhos de satisfação que reconhecem as riquezas naturais e tecnológicas e minimamente as sociais. Jesus, os Budas, Maomé e tantos outros protagonistas espirituais traduziram para seus povos as indicações nos caminhos. Todavia, sem o espelho, escolhemos as opções mais prazerosas, as mais exuberantes que nossa vaidade traduz. "Voltar ao simples, sem comparações" dará o grau de cada evolução de cada Ser.
ResponderExcluir*O espelho é o "Mito de Narciso"
Verdade Valnei! Impressionante como ainda insistimos nas más escolhas.
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