Conhecer os postulados espíritas para agir como espírita
“O Agir Espírita: democracia e participação social”. É o tema do 2º Painel realizado no IV Fórum Social Espírita - “Paz e Democracia: caminhos de um novo tempo”. O Fórum aconteceu nos dias 9 e 10 de setembro, na Casa José de Alencar; com transmissão via o canal do Coletivo Girassóis - Espíritas pelo Bem Comum no Youtube.
A seguir, você confere o texto que serviu de base para a fala de Klycia Fontenele.
Reconhece-se o verdadeiro espírita pelo bem que ele faz, e pelo esforço que ele dedica para vencer suas más inclinações. Reconhece-se o verdadeiro espírita pela caridade que ele cultiva em sua alma como virtude, e que se reflete em ações de benevolência, indulgência e perdão. Então, se queres agir como espírita, procura conhecer-te para que, ciente de ti, possas fortalecer o que já trazes de bom e combater o que ainda tens de mau. Esta tarefa não é fácil e já vem sendo almejada por muitos, antes mesmo de o Espiritismo ser apresentado ao mundo na forma de uma doutrina.
Diante da dificuldade de reconhecer nossos talentos e nossas fragilidades, o Espiritismo nos apresenta uma estratégia: conhecer a nossa natureza espiritual, através da observação e da vivência das manifestações e comunicações dos Espíritos. Propõe mais! O Espiritismo nos estimula a usar do raciocínio, da lógica, do bom senso, para compreender o mundo espiritual. Então, o agir espírita é isso.
Mas, é também: saber que Deus existe, porque é a existência de Deus que sustenta todos os demais postulados. Se algum dia alguém conseguisse provar que Deus, a inteligência suprema, a causa primária de todas as coisas, não existe, perderia sentido toda a proposta espírita. Afinal, como uma doutrina que segue a moral apresentada, em toda a sua plenitude, por Jesus, só haverá sentido em querer se transformar se o horizonte for a vida futura; a vida além-túmulo que é a vida natural de cada um de nós.
Acreditar que Deus existe é entender que ele só pode existir no infinito de sua perfeição. Por isso, ele é todo-poderoso, único, imutável, imaterial, soberanamente bom e justo. Nada se iguala ou se igualará a ele. Os atributos de Deus, especialmente sua bondade e justiça nos leva a deduzir que há uma causa justa em tudo o que acontece. Ou seja, tudo que acontece tem a medida certa, necessária ao progresso do Espírito, do ser humano, dos animais, das plantas e das coisas inanimadas.
Esta é uma lei universal, alcança toda a criação, porque tudo, absolutamente tudo, é criação de Deus.
Mas, para nós que ora vivemos em um mundo de expiações e provas, acreditar nisso é bem difícil, especialmente porque, como espírita, a nossa crença deve vir como consequência de uma razão convencida de que esta lei é verdade. Somente no dia em que nossa razão consentir é que seremos realmente obedientes às leis de Deus, e somente com a razão acatando a verdade de que Deus existe e é bom e justo, é que ela vai permitir que o nosso coração se aproprie dessa verdade e transborde todo o sentimento que nos aguarda, que nos espera senti-lo. Nesse dia, além de obedientes, seremos resignados ante os desígnios de Deus.
Pelos relatos dos Espíritos, especialmente daqueles que já alcançaram este progresso, eu sei que é possível um dia, chegar lá. Sei que é possível que cada um aqui, chegue; alcance esse progresso. O próprio exemplo de Jesus, que é o exemplo do amor incondicional, sentido em comunhão com a razão. Um amor abnegado, porque escolheu amar primeiro Deus, porque, inclusive, já o conhece... O próprio Jesus é outro motivo que me leva a acreditar, a ter esperança.
E, por favor, não falo de um Jesus das narrativas dúbias, não falo de um Jesus que serviu de justificativas para atrocidades ao longo desses mais de dois mil anos. Falo da moral que ele encerra e que nenhuma crítica, nenhum ataque ou calúnia conseguiu abalar. Falo de uma moral que se pauta em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Falo de uma moral que traz como consequência, o perdão, a solidariedade e a fraternidade. Um amor que é ágape e que sustenta a caridade, e por ela, é sustentado. Porque o amor de Jesus é vivo, pulsante, ativo.
Mas, somos rebeldes às leis de Deus e cultivamos, e gostamos de cultivar, nossas imperfeições. O orgulho ainda nos cega, porque nos impede de nos conhecermos, com nossas sombras e luzes. Um orgulho que, alimentado pelo egoísmo, faz a gente tropeçar, se afastar de Deus, e neste planeta, faz surgir, ainda, as desigualdades sociais. Enquanto não entendermos isso, não passaremos de revolucionários violentos, mesmo que não usemos armas de fogo para mudar o mundo, para transformar a sociedade.
Aqui, neste auditório, há espíritas, pelo menos, há adeptos do Espiritismo. Se somos ou não verdadeiros espíritas, só o exame íntimo e individual de nossas intenções é que poderá nos revelar. Mas, eu tendo a pensar que aqui, neste salão, há pessoas que decidiram atender ao chamado de Deus e que tentam, ora de maneira mais intensa, ora de maneira leviana, tentam se transformar moralmente. Esta é a batalha de todo encarnado, espírita ou não: vencer os seus vícios e progredir em virtudes. Se não é a batalha de todos, pelo menos deveria ser, porque este é o motivo de estamos vivendo esta existência na carne. Esta e todas as demais.
Este é o agir espírita que não se molda a contextos históricos ou a regimes de governo. Na monarquia ou na república, na ditadura ou na democracia, o Espírito encarna com a tarefa de alcançar a felicidade plena que é um dia viver em Deus, como um puro Espírito, como os anjos. Esta é outra verdade espírita. Em outras palavras, o objetivo da encarnação é chegar à perfeição, e isso é uma lei de Deus, do mundo espiritual. Uma lei espírita, portanto.
Mas, para viver dia a dia em busca do próprio progresso, o Espírito não segue sozinho nem quando está errante e nem quando está encarnado. E aqui, voltamos ao começo de nossa fala para ressaltar a necessidade de fazer o bem ao próximo, seja ele quem for. Pense ele igual ou não a mim.
Quando eu falo e me escuto, eu vejo como a tarefa que me chama a mudar, que nos chama, é uma tarefa dantesca, principalmente, porque nós nos desviamos demais do caminho reto. É por isso que não me sinto apta a condenar quem escolhe um caminho diferente do meu, porque sei que cada encarnação, da mais famosa a mais obscura, é importante aos olhos de Deus.
Nós viemos, hoje aqui, porque de algum modo concordamos com esses postulados espíritas. E nós não podemos perder de vista os princípios do Espiritismo, principalmente, quando nossa vontade é de que as coisas mudem mais rápido. Passamos séculos, milênios, cultivando o egoísmo e o orgulho, não dá para querer uma mudança nas estruturas sociais de uma hora para outra. As estruturas sociais, de certo modo, refletem o que carregamos de mais intenso nas fibras de nossas almas.
Mas, o progresso do ser humano acontece no ritmo de sua disposição para progredir. E cada mulher, cada homem é livre para escolher se vai ou não tomar as rédeas de sua vida. Agora, quando decidimos assumir nossa condição de seres inteligentes e livres, e se junto a isso, assumimos também o compromisso de viver em Deus, passamos a ter o dever de fazer o bem. E quem assume o dever de fazer o bem, porque já compreendeu que sua felicidade depende disso, não pode viver isolado em si e com os seus, mesmo que sejam familiares e amigos.
Precisa viver pelo bem comum, por uma vida coletiva pautada na justiça social, no amor fraterno e na solidariedade.
Eis o desafio: construir esse convívio fraterno à medida que se quebra o próprio orgulho, o próprio egoísmo. Desafio grande que exige de nós a disposição para educar a nossa alma de maneira libertária, com uma educação que nos ajude a formar valores no bem e que nos emancipe da barbárie. Nos liberte dessa selvageria que se tornou os nossos dias quando nos submetemos ao mal. Um mal que se apresenta numa palavra rude, num olhar indiferente, numa comida que apodrece na geladeira, numa roupa que envelhece no armário, ou ainda na lógica perversa de um sistema que explora o ser humano como se ele fosse coisa, numa lógica como é a do sistema capitalista.
Talvez, muitos já estejam se perguntando: “em que momento ela vai falar de democracia e participação”. Bem... a democracia, ao contrário do que gritam muitos por aí, não é um regime perfeito (ainda mais em um país com fome). Nem poderia ser, ela foi criada por seres imperfeitos que somos nós. Por isso, a democracia já viveu várias fases. Desde a Grécia, em que só homens livres e cidadãos participavam, até os dias de hoje, dias dessa democracia de TikTok, de memes.
Essa democracia rasa em que fingimos agir quando na prática estamos delegando a outros, que chamamos de representantes, as decisões sobre a vida coletiva que envolve todos nós. Por isso, penso eu que devemos também tirar as ilusões que povoam os nossos pensamentos quando imaginamos a democracia que virá em 2023 se o Governo atual cair. Nem o mundo e muito menos o Brasil vai mudar por causa de um voto, ou de milhares.
As desigualdades sociais são mais profundas do que um ou outro governo. As causas das desigualdades sociais vão muito mais além do que o capitalismo. Porque as desigualdades sociais são um problema moral.
Mas, mesmo imperfeita, a democracia representativa é hoje, o regime que ainda nos permite certa mobilidade, certa ação. Além disso, quem viveu no Brasil nos anos 2000 sabe que um governo preocupado com as questões sociais faz toda a diferença... especialmente, quando a gente olha para os últimos quatro anos, ou melhor, para os últimos seis anos; desde o golpe institucional, que foi chamado de impeachment, aos dias de hoje.
Então, mesmo em um regime imperfeito – que por sinal, mantém o capital, essa sociedade das mercadorias – precisamos encontrar as brechas para esperançar alguma mudança, mesmo que pontual. Porque nós precisamos aprender a viver, construindo um país mais tolerante, menos miserável. Porque nós precisamos aprender e acreditar que é possível viver em um mundo onde a justiça, o amor e a caridade sejam seu alicerce.
Porque nós precisamos, mesmo que aos pouquinhos, aprender a viver em Deus.
Obrigada!
Texto sob inspiração mediúnica
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Gratidão a Deus pelo amparo dos Bons Espíritos
ResponderExcluirParabéns Klycia! Seu texto está excelente e muito inspirador. Espero que vc continue nos brindando com mensagens maravilhosas.
ResponderExcluirPerfeito Klycia! Obrigada a você e a quem lhe inspirou.
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