No Dia Internacional da Mulher - pensemos nas mulheres iranianas



Hoje é dia 8 de março. Dia Internacional da Mulher.

Enquanto escrevo isso, penso nas mulheres do Irã. Não nas que a mídia ocidental costuma mostrar como vítimas de um regime opressor, mas nas reais: nas jovens de jeans e tênis, com seus hijabs e livros debaixo do braço, caminhando por ruas de Teerã, Isfahan, Shiraz. Mulheres que são engenheiras, físicas, médicas, professoras universitárias. Livres para estudar, para dirigir, para serem o que quiserem - algo que, convenhamos, em muitos lugares do chamado "mundo livre" ainda é privilégio, não realidade.

O Irã que o Ocidente insiste em demonizar é o mesmo que formou uma geração de mulheres cientistas. O mesmo que, sob a liderança do Imam Khomeini, apoiou Nelson Mandela, resistiu oito anos de guerra química imposta pelo Iraque com armas fornecidas pelos Estados Unidos, e recusou-se a revidar com armas de destruição em massa - porque matar civis indiscriminadamente, segundo seus princípios, é contra o Alcorão.

Enquanto isso, os mesmos que hoje choram pelas mulheres israelitas são os que bombardeiam e espalham destruição e dor entre as mães no Iêmen, na Palestina, em Bagdá, no Kosovo e na Somália. São os que mantêm bases militares em países do Golfo onde mulheres são compradas e vendidas em hotéis de luxo, onde não há universidades públicas de qualidade, onde o petróleo financia paraísos artificiais para turistas enquanto a população local é tratada como mão-de-obra descartável.

Porque a história nunca é contada por inteiro.

A Líbia, por exemplo, era o país africano com o maior IDH do continente. Não havia pessoas em situação de rua. Os lucros do petróleo eram divididos com a população. Educação gratuita e de qualidade para todas as crianças. Hospitais públicos e gratuitos, num país que procurava desenvolver seus próprios medicamentos. E quando um tratamento não era possível dentro do país, o governo pagava para que o cidadão se tratasse em qualquer lugar do mundo. Kadafi propôs uma união africana, um banco de desenvolvimento e uma rede de satélites própria para que os países africanos não dependessem mais da extorsão europeia.

Mas isso não podia continuar. A França, a Inglaterra, os EUA não aceitam que países africanos ou muçulmanos sejam exemplos de soberania e bem-estar. Como justificar, então, a pilhagem? Como manter o paraíso europeu às custas do sofrimento alheio?

Algo semelhante aconteceu no Golfo Pérsico. Os britânicos, no século XIX e XX, desenharam fronteiras, escolheram famílias para reinar, criaram monarquias artificiais para garantir petróleo barato e rotas comerciais seguras. Assim nasceram os Emirados Árabes Unidos - não da vontade popular, mas do interesse estrangeiro. Petróleo vendido a preço de banana para empresas ocidentais, enquanto a população local era mantida sob controle por uma elite corrupta, sustentada por dinheiro sujo, jogos, tráfico e prostituição. 

E tudo isso protegido pelas mesmas potências que hoje falam em direitos humanos.

O Irã era a última barreira geopolítica para o projeto da "Grande Israel", do Nilo ao Eufrates. E continua sendo. Por isso é atacado há quase 50 anos com sanções, guerras híbridas, terrorismo, bombardeios. E por isso seu povo resiste.

Na última semana, mais de 165 meninas foram mortas em uma escola primária em Minab, mártires da inocência. O bombardeio foi preciso. Como foi preciso o ataque à casa do líder da Revolução Islâmica no primeiro dia da guerra. Ele disse: "Não vou fugir. Meu povo também não tem para onde ir". E o povo está nas ruas todas as noites, sob as bombas. Não são covardes. São iranianos. Uma civilização com mais de 5 mil anos.

E enquanto isso, aqui no Ocidente, pseudocristãos aplaudem. 

Gente que frequenta igrejas neopentecostais no Brasil e nos EUA acredita que precisa destruir a mesquita de Al-Aqsa para construir o Terceiro Templo e apressar a volta de Jesus. Seguem uma teologia inventada por John Darby, um britânico do século XIX, que nunca pisou no Oriente Médio. Acreditam que o Armageddon é necessário, que o extermínio é profecia. Chamam isso de fé.

Esses mesmos fundamentalistas controlam parlamentos, mídia, indústria bélica. Usam Israel como instrumento e os cristãos como massa de manobra. Desprezam os palestinos, desprezam os muçulmanos, desprezam a história. E, no fundo, desprezam as mulheres - porque nenhuma sociedade que promove a guerra e a destruição pode, de fato, respeitar a vida em sua plenitude.

Por isso, hoje, 8 de março, eu não celebro flores. Celebro resistência.

Celebro as mulheres iranianas que não se curvaram.

Celebro as meninas de Minab que não terão seus sonhos realizados.

Celebro as jovens palestinas soterradas nos escombros.

Celebro as mulheres da resistência cubana.

Celebro as mulheres africanas, vítimas da escravização e da violação de seus corpos há séculos.

Celebro as brasileiras que lutam todos os dias contra a hipocrisia de um sistema que as quer caladas, submissas, disponíveis.

Que esse dia seja, para nós, um lembrete de que a luta das mulheres é a luta de todos os povos oprimidos. E que não haverá liberdade enquanto houver bombas caindo sobre escolas, enquanto houver impérios decidindo quem vive e quem morre, enquanto houver silêncio diante da injustiça.

Porque o que acontece com as mulheres do Irã, da Palestina, da África, do Brasil, também diz sobre nós, homens que se importam. Também nos convoca.

E nós, como elas, não vamos nos calar.

Somos seus filhos, devemos ser também seus parceiros nas suas lutas.


Elber Boaventura


Comentários

  1. Hoje, dia 08.03. 2026, amanheci pensando nas mulheres vítimas dessas guerras horrendas no Oriente,apesar das dores que as mulheres do Ocidente tem enfrentado , principalmente as brasileiras. Nunca foi fácil ser mulher em lugar nenhum desse planeta e em nenhuma época. São poucas, as que pelo menos, no dia de hoje são homenageadas por homens héteros. Me sinto feliz e honrada por ter um amigo como Elber Boaventura,sua sensibilidade em captar a alma feminina,a contribuição das mulheres ao longo da história, principalmente essas do Oriente,e o quanto estamos sofridas apesar dos séculos,e do que se acredita, estarmos entrando em um mundo de Regeneração. Estamos mais num mundo de revelação,agora toda sujeira feita está vindo à tona. E ainda sem perspectiva de horizonte para as mulheres,mas acredito que é da nossa própria essência ,força e união que nos cabe cerrar as mãos na luta,para proteger as próximas gerações,num basta! Esse terror tem que acabar agora nessa nossa geração.
    Que nenhuma mulher solte a mão de outra mulher.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É sobre isso! Sandra, minha amiga querida! Ninguém mais do que o Cristo apontou a hipocrisia machista do seu tempo. Ninguém mais do que as mulheres o compreendiam, fossem as de Nazaré ou da Samaria, de Betânia ou de Magdalo... Ele se revelava a elas em toda Sua simples grandeza, ao pé do poço de Jacó ou do alto de uma cruz, e denunciava a covardia da turba de homens contra mais uma mulher vítima da lascívia de outro homem e daquela sociedade adoecida. Suas maiores amigas, aliadas e companheiras foram (e são) as mulheres e Ele sabia porque.

      Excluir
  2. Texto realista, perfeito. O dia da mulher, especialmente no Brasil, foi totalmente desviado do sentido e do seu significado, tornou-se puro comércio. Muito bom Elber.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo! E apesar disso, amiga Rita de Cassia, temos que aproveitar a visibilidade desse dia para denunciar, levantar os cartazes e (se vocês quiserem) jogar as flores na cara dos "Red pills" de plantão. Que eles (e todos nós homens) entendam que vocês não fazem questão de suas caixas de bombons... Vocês só precisam (exigem) do respeito, e que eles façam silêncio de suas idéias misóginas e machistas. Precisamos mudar a cultura do abuso e de toda forma de violência contra a mulher, para que a mão que num dia dá flores, no outro não se levante em um punho de ameaça e covardia.

      Excluir

Postar um comentário

Seu comentário é muito bem vindo!!